Voluntariado após os 70 anos: Perceção da sociedade sobre pessoas mais velhas afeta benefícios
- CIS-Iscte

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Uma equipa de investigação do Centro de Investigação e Intervenção Social e da Universidade de Saragoça, explorou como o estatuto social subjetivo de pessoas mais de 70 anos modera os efeitos positivos no bem-estar associados à participação em atividades de voluntariado para este grupo demográfico. Os resultados têm implicações na definição de políticas e práticas inclusivas que possam maximizar os efeitos positivos do voluntariado na terceira idade.

A psicóloga social e investigadora do CIS-Iscte, Luísa Lima, explica que
“estudos anteriores têm demonstrado consistentemente que as desigualdades sociais estão profundamente associadas a pior saúde e bem-estar em idades mais avançadas”.
Segundo a investigadora, o voluntariado tem sido identificado como um recurso poderoso para as pessoas mais velhas, pois pode melhorar o bem-estar psicológico, fortalecer a autoestima e reduzir os sintomas depressivos. Apesar desses benefícios, “as pessoas com mais de 70 anos fazem voluntariado significativamente menos do que aquelas, digamos, na casa dos 50 ou 60 anos”. Então, por que razão as pessoas mais velhas se envolvem menos em voluntariado? De acordo com Luísa Lima, existem inúmeros fatores que podem afetar a vontade de participar nessas atividades, desde limitações físicas e cognitivas que podem restringir o envolvimento das pessoas, até à perceção que outras pessoas têm da sua capacidade para o fazer. “Os padrões de voluntariado variam consoante o tipo de atividade e o país em que as pessoas vivem, sugerindo um papel importante dos contextos sociais e culturais”, esclarece a investigadora. Nas sociedades ocidentais, as pessoas mais velhas são frequentemente vistas como tendo menos poder, estatuto e valor social do que adultos de meia-idade, o que pode moldar tanto as suas oportunidades de se envolverem em voluntariado como o seu bem-estar.
Investigações anteriores têm-se focado principalmente em como fatores objetivos, como o rendimento e a educação, influenciam a relação entre o voluntariado e o bem-estar subjetivo. Neste estudo, publicado em 2025, a equipa de investigação composta por cientistas do CIS-Iscte e da Universidade de Saragoça analisou como o estatuto social subjetivo – a forma como as pessoas percebem a sua posição na hierarquia social – pode influenciar essa relação em pessoas com 70 anos ou mais, em diferentes sistemas de segurança social europeus.
Com base em dados do European Social Survey (ESS) recolhidos entre 2008 e 2010, a equipa de investigação realizou análises sobre dados de 8331 pessoas com mais de 70 anos, de 29 países europeus. A equipa examinou diferentes aspetos da vida das pessoas, nomeadamente: se faziam voluntariado ou não, como se sentiam em relação às suas vidas (saúde, felicidade, satisfação geral), género, educação, rendimento e estado civil. Mais importante, a equipa de investigação calculou um indicador ao nível nacional sobre o grau de respeito geralmente demonstrado pelas pessoas idosas nesse país (ou seja, o seu estatuto social subjetivo), com base na forma como os inquiridos do ESS consideram que a maioria das pessoas no seu país percebe o estatuto das pessoas mais velhas. A equipa de investigação utilizou modelos multiníveis para analisar os dados a nível individual e nacional, considerando diferentes sistemas de segurança social, o que ajudou a compreender não só se o voluntariado tem efeitos positivos, mas também em que condições sociais pode ser mais ou menos benéfico.
Os resultados do estudo mostraram que as pessoas mais velhas que fazem voluntariado relatam melhores resultados em termos de saúde, felicidade e satisfação com a vida do que aquelas que não participam nesse tipo de atividades. Este padrão foi observado de forma clara e consistente nos vários países europeus.
“Este estudo revela um mecanismo psicológico crítico: o efeito moderador das perceções sociais sobre o envelhecimento nos benefícios do voluntariado segue um padrão consistente com a teoria da identidade social, em que o estatuto social percebido amplifica ou atenua a autoestima e o propósito que derivam de comportamentos pró-sociais em idade avançada”, explica Julia Sánchez-García, da Universidade de Saragoça, autora principal do estudo.
Especificamente, a equipa de investigação verificou que a relação positiva entre o voluntariado e o bem-estar era significativamente mais forte nos países onde as pessoas mais velhas são vistas como tendo um estatuto social mais elevado e são tratadas com maior respeito. De acordo com o estudo, nesses contextos, o voluntariado está associado a uma melhor autoavaliação da saúde, maior felicidade e melhor qualidade de vida em geral para as pessoas com mais de 70 anos. Em contrapartida, essa relação era mais fraca nos países onde as pessoas mais velhas são vistas de forma mais negativa ou enfrentam atitudes mais discriminatórias em relação à idade.
Sibila Marques (CIS-Iscte), também autora deste estudo, explica que “as perceções sociais do envelhecimento desempenham um papel crucial na definição do benefício que as pessoas mais velhas retiram do envolvimento social e das atividades de voluntariado”. Acrescenta que “as nossas análises também indicaram que viver numa sociedade que atribui um estatuto social mais elevado às pessoas mais velhas estava diretamente associado a uma melhor saúde e bem-estar em idade avançada”. A investigadora sugere que a redução do idadismo (preconceito com base na idade) e o reforço do respeito pelas pessoas mais velhas podem potencialmente melhorar a participação em voluntariado e os seus efeitos positivos no bem-estar.
A equipa de investigação conclui que melhorar o estatuto social de pessoas mais vellhas através de políticas inclusivas e intergeracionais poderia reforçar os benefícios do voluntariado no bem-estar e apoiar a conquista de um envelhecimento saudável, ativo e equitativo, alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. A equipa desta investigação publicada no Journal of Applied Social Psychology é composta por Julia Sánchez-García (Universidade de Saragoça), Maria Luísa Lima (CIS-Iscte), Sibila Marques (CIS-Iscte), Ana Isabel Gil-Lacruz (Universidade de Saragoça) e Marta Gil-Lacruz (Universidade de Saragoça).




