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Estudo internacional analisa como direitos das mulheres são instrumentalizados por Giorgia Meloni como estratégia política

  • Writer: Pedro Simão Mendes
    Pedro Simão Mendes
  • 2 hours ago
  • 3 min read

Um estudo recente, conduzido por uma equipa de investigação internacional, com participação do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, analisou publicações nas redes sociais oficiais da atual primeira-ministra de Itália, expondo como os direitos das mulheres são instrumentalizados como estratégia política, contribuindo para reforçar narrativas de exclusão e divisão entre “nós” e “os outros”. Os resultados pretendem fazer refletir sobre como estas estratégias podem comprometer as políticas inclusivas um pouco por toda a Europa.


Giorgia Meloni at the Special European Council, 2024 | © European Union, 1998 – 2026
Giorgia Meloni at the Special European Council, 2024 | © European Union, 1998 – 2026

“A visibilidade das mulheres no poder não promove necessariamente a política feminista, mas pode antes sustentar projetos conservadores ou mesmo anti-feministas.”, explica João Manuel de Oliveira, investigador do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte), atual coordenador do Psychange – Psychology for Societal Change, grupo de investigação do CIS-Iscte e um dos autores do estudo. A investigação liderada por Diego Lasio (Universidade de Cagliari, Itália) analisou 41 publicações nas contas oficiais do Instagram, Facebook, Twitter (atualmente X) e YouTube de Giorgia Meloni entre 2015 e 2022. Com foco nos tópicos como género, direitos das mulheres e migração, a equipa de investigação identificou três estratégias discursivas centrais que mostram como estes temas são utilizados para estigmatizar migrantes e legitimar posições anti-imigração.


Este estudo surge num contexto de crescente afirmação da extrema-direita na Europa, com líderes como Giorgia Meloni, em Itália, e Viktor Orbán, 16 anos no poder na Hungria, bem como partidos como o Vox, em Espanha, o Chega, em Portugal, e a Alternative für Deutschland, na Alemanha, continuam a reforçar a sua influência política. Neste cenário, a imigração tem-se tornado um dos temas centrais do debate público, frequentemente associada a discursos que reforçam perceções de insegurança e ameaça.


De acordo com João Manuel de Oliveira, este contexto exige “compreender de que forma estes discursos são construídos e de que forma influenciam a opinião pública”. Ao focar-se na mobilização dos direitos das mulheres, o estudo permite perceber como valores associados à igualdade podem ser usados para alimentar e justificar narrativas de exclusão, ajudando a compreender de forma mais crítica as dinâmicas da política atual.


Adicionalmente, foram identificadas três estratégias recorrentes utilizadas por Giorgia Meloni: a boa mãe da pátria; a defesa cristã dos direitos civis; e o compromisso da extrema-direita com os direitos das mulheres.

“Meloni recorre a casos mediáticos de violência para generalizar comportamentos, associá-los a grupos específicos, sobretudo migrantes muçulmanos, e construir a ideia de que representam uma ameaça”, explica o investigador do CIS-Iscte, “justificando assim a necessidade de impor maiores restrições à imigração”, acrescenta.

A equipa de investigação verificou que o discurso de Meloni associa episódios de violência a uma explicação cultural e religiosa, generalizando comportamentos a homens muçulmanos e reforçando estereótipos que alimentam uma perceção de ameaça associada à imigração. Paralelamente, Meloni apresenta-se como mulher e mãe, com autoridade moral, ao mesmo tempo que retrata mulheres muçulmanas como vítimas passivas ou como cúmplices silenciosas, sustentando uma narrativa que legitima políticas migratórias mais restritivas sob a ideia de “salvar” essas mulheres.


A investigação aponta ainda que este discurso, constitui um “pseudofeminismo”, que coloca a Europa Ocidental, e a Itália em particular, num patamar de superioridade cultural, assumindo a igualdade de género como um objetivo já alcançado, enquanto exclui as próprias mulheres muçulmanas do debate. Assim, estabelece-se uma divisão eurocêntrica e colonial entre o “nós” ocidental e cristão e o “outro” islâmico, frequentemente descrito como intrinsecamente atrasado e violento.


As conclusões do estudo levantam questões importantes sobre o impacto deste tipo de discurso no espaço público e político, na Europa e no mundo. Ao evidenciar a forma como os direitos das mulheres (e, em alguns casos, da comunidade LGBTQIA+) são mobilizados de forma seletiva, a investigação aponta para uma contradição: enquanto são invocados como símbolos de valores ocidentais a proteger, esses mesmos direitos são frequentemente alvo de contestação ou desvalorização por parte dos atores políticos que os utilizam. Segundo a equipa de investigação, esta instrumentalização enfraquece o impacto dessas lutas e contribui para legitimar narrativas racistas de exclusão, influenciando a perceção pública sobre imigração e reforçando divisões sociais.


Este texto foi escrito por Carolina Morais, estudante do Mestrado em Psicologia Social e Organizacional (Iscte), no âmbito do seu estágio no CIS-Iscte.

 
 

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