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Como processamos as mudanças de estado dos objetos durante a compreensão da linguagem?

Um estudo realizado no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) explorou como as pessoas processam as mudanças de estado de um objeto durante a compreensão da linguagem. Os resultados podem melhorar a nossa compreensão da linguagem e informar modelos teóricos de cognição de eventos.

The image depicts a smashed banana inside a closed hand and banana parts over an orange background

© 2017 Laker | Pexels

 

Segundo os autores Oleksandr Horchak e Margarida Garrido, investigadores do CIS-Iscte, estudos no campo da psicolinguística (área da psicologia que investiga os processos linguísticos) têm explorado como as pessoas processam mudanças nos estados dos objetos durante a compreensão da linguagem. Por exemplo, o que acontece quando lemos uma frase sobre alguém escolher uma banana versus pisar uma banana?


"Os nossos cérebros são sensíveis às mudanças de estado dos objetos, e os custos (dificuldades) associados a manter o controlo desses múltiplos estados podem ser significativos", explica Oleksandr Horchak. "Por exemplo, estudos anteriores mostraram que os participantes levavam mais tempo para verificar uma imagem de uma banana no seu estado original depois de ler uma frase como (1) 'John pisou uma banana' do que depois de ler uma frase como (2) 'John escolheu uma banana’. O inverso foi observado com uma imagem de uma banana no seu estado modificado: os participantes levaram menos tempo para verificar uma imagem de uma banana após a frase (1) do que (2).” Mas será que há outras consequências de ter de acompanhar estes diferentes estados do mesmo objeto?


"O objetivo do nosso estudo foi determinar se as pessoas são sensíveis aos estados de objetos semanticamente relacionados, como uma manga e uma banana, durante a compreensão de eventos", afirma a investigadora Margarida Garrido. Ela acrescenta: "Há evidências substanciais que indicam que, quando os participantes fornecem uma resposta 'não' neste tipo de tarefas, os seus tempos de resposta são reduzidos para objetos altamente relacionados. Por exemplo, é difícil dizer que "banana" não foi mencionada numa frase que fazia referência a outra fruta relacionada como "manga". No entanto, o que permanece por desvendar é até que ponto as respostas podem ser lentificadas dependendo do estado assumido do objeto relacionado (estado original da manga vs. estado modificado da manga).” Oleksandr Horchak continua: "Por exemplo, será que a rejeição dos participantes a uma banana (ou seja, o tempo necessário para responder que uma banana não foi mencionada na frase) é ainda mais atrasada quando os eventos descrevem uma mudança substancial, como em 'John pisou uma manga'?"


Nas experiências deste estudo, os/as participantes leram frases sobre mudanças no estado dos objetos ("John escolheu/pisou uma manga" ou "Jane escolheu/pisou uma lâmpada") e, em seguida, viram uma imagem de um objeto ("banana"). Tinham de decidir se esse objeto tinha sido mencionado na frase anterior. De acordo com a previsão, os resultados mostraram que os tempos de verificação para uma banana foram mais longos após a leitura de uma frase descrevendo uma mudança substancial de um objeto relacionado ('John pisou uma manga') em comparação com uma frase descrevendo uma mudança mínima ('John escolheu uma manga'). É importante salientar que os tempos de verificação de uma banana não foram afetados após a leitura de uma frase descrevendo uma mudança substancial de um objeto completamente não relacionado ("John pisou uma lâmpada "). Isto exclui a possibilidade de que o tipo de verbo por si só (por exemplo, verbo de ação, verbos estáticos) possa atrasar as respostas dos/as participantes independentemente do objeto mencionado na frase.


Para a equipa de investigação do CIS-Iscte, o estudo fornece evidências de que as pessoas são sensíveis aos múltiplos estados de objetos semanticamente semelhantes, sugerindo que compreender eventos envolve a construção de representações dinâmicas de histórias de objetos que se cruzam. "Estes dados são importantes para uma melhor compreensão dos processos cognitivos envolvidos na compreensão da linguagem e na representação mental de eventos através da integração de informação visual e linguística", concluem Oleksandr Horchak e Margarida Garrido.

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