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Desigualdades económicas são legitimadas pela crença de que as pessoas têm o que merecem

Isabel Correia, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) contribui para estudo sobre as perceções de justiça e a legitimação da desigualdade económica em 27 Países Europeus. Os resultados indicam que as pessoas que concordam mais que as pessoas têm o que merecem, ou merecem o que têm, possuem maior probabilidade de justificar as desigualdades económicas no seu país.

© 2020 Benjamin Disinger | Unsplash


A crença no mundo justo, traduzida pela ideia de que as pessoas têm aquilo que merecem, ou merecem o que têm, foi inicialmente proposta por Melvin J. Lerner, psicólogo clínico que na década de 1960 começou a questionar certos comportamentos que observava, tais como o facto dos seus colegas de trabalho culpabilizarem os pacientes mentais pela situação em que estes se encontravam, ou os seus alunos ridicularizarem pessoas pobres. Estes comportamentos foram explicados por Lerner como um mecanismo de defesa que pode resultar numa perceção distorcida das pessoas que sofrem injustamente quando não é possível reduzir essa injustiça. Deste modo, restabelecem a perceção de justiça percebendo a situação como menos injusta e as vítimas como menos inocentes do que são na realidade. Estas distorções resultam numa vitimização adicional que pode reduzir os apoios de que essas vítimas inocentes necessitariam para mitigar a sua situação.


Mais recentemente, a crença no mundo justo tem sido investigada em termos de associação a ideologias políticas, como a Meritocracia, Neoliberalismo ou Justificação do Sistema. Utilizando os dados de mais de 45 mil pessoas entrevistadas em 27 países europeus provenientes do European Social Survey 2018, este estudo realizado por Isabel Correia, Investigadora no CIS-Iscte e professora no Iscte, procurou examinar a associação entre a crença no mundo justo e a perceção de justiça da população relativamente a três indicadores: desigualdade económica geral, rendimentos dos 10% mais ricos, e rendimentos dos 10% mais pobres. Os resultados revelam um efeito preditor da crença no mundo justo na legitimação de desigualdade económica. Mais especificamente, quanto maior crença em que as pessoas têm o que merecem, maior a legitimação da desigualdade económica, associação que se verifica para os três indicadores. Adicionalmente, este efeito é mais forte na legitimação dos rendimentos dos 10% mais pobres quando comparado com a legitimação dos rendimentos dos 10% mais ricos. Por outras palavras, os resultados sugerem que é mais fácil culpar os pobres do que louvar os ricos. Ressalta-se, ainda, o facto de esta associação poder predizer atitudes relativamente à redistribuição de riqueza, sendo que o efeito é novamente mais evidente na legitimação dos rendimentos dos 10% mais pobres, algo consistente com a noção que a avaliação negativa dos pobres leva à oposição a políticas de redistribuição.


Analisando outros fatores, os resultados sugerem que quanto maior a desigualdade económica no país de residência, menor é o efeito preditor da crença no mundo justo na legitimação da desigualdade económica, o que paradoxalmente parece sugerir que as perceções de justiça se apresentam como um mecanismo que procura restaurar a dissonância de observar injustiça em locais relativamente justos.


Isabel Correia tem investigado as perceções de justiça e atitudes negativas face às vítimas. Na temática, um estudo de 2018 mostrou que numa amostra representativa de portugueses as perceções de justiça estavam associadas a uma maior culpabilização do povo português pela crise económica de 2008 e pelo resgate da Troika em 2011. O estudo agora publicado na revista científica Personality and Social Psychology Bulletin, em coautoria com os investigadores Efraín García-Sanchez (Univ. de São Paulo, Univ. de Granada), Cícero Pereira (Univ. Federal de Paraíba, ICS-ULisboa), Guillermo Willis (Univ. de Granada), Rosa Rodríguez-Bailón (Univ. de Granada) e Jorge Vala (ICS-ULisboa) sugere mais uma vez que a necessidade fundamental de justiça pode, paradoxalmente, levar à legitimação de injustiças. Neste caso a considerar que as desigualdades económicas são justas, os desfavorecidos merecem ser pobres e os favorecidos merecem ser ricos.



Este texto foi escrito por Gonçalo Queirós, estudante do Mestrado em Psicologia Social e das Organizações (Iscte) no âmbito do seu estágio curricular no CIS-Iscte.

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